Você conhece os botos organizacionais?
Há
um mito amazonense bastante interessante. Quando uma jovem aparece
grávida, sem que o pai seja devidamente conhecido, imediatamente
culpa-se o boto pela estrepolia (o boto é aquele simpático
“animalzinho” que de vez em quando freqüenta
o Globo Repórter e que pode ser até cor-de-rosa).
Desta forma, com esta desculpa, , as coisas se acertam na comunidade
e nem a moçoila desatenta e nem o nenê sem pai identificado
terão problemas maiores no futuro. Foi o boto e pronto
e a conversa acaba por aí. E o boto leva a culpa na história...
As
nossas organizações têm também versões
e mitos que se parecem muito com o do boto. Na verdade, há
muitos botos circulando pelas empresas públicas e privadas.
De imediato, podemos apontar 3 deles: “a Rádio Peão”,
a “cultura da empresa” e “Eles lá de
cima”.
Você,
com certeza, já presenciou as frases seguintes dentro das
organizações:
“Precisamos
desativar essa tal de Rádio Peão. Tudo o que acontece
por aqui tem a ver com ela. Sabe, como é, ela está
a serviço do Sindicato , que está interessado em
botar fogo aqui dentro...”
“Tudo
bem, você está certo, mas aqui a gente não
faz assim porque , você sabe, tem a cultura da empresa e
a gente não pode contrariá-la...”
“Eles
lá em cima não querem que este assunto seja ventilado
no house-organ. Eu posso até concordar com você que
o tema é importante, mas não adianta. Se eles não
querem, não se pode fazer nada.”
Os
botos organizacionais têm a ver com a falta de transparência
nas organizações e a necessidade de justificar o
injustificável. Muitas chefias, com muito autoritarismo
e pouca autoridade legítima, lançam mão destes
artifícios para fugirem da responsabilidade. Mas é
importante analisar o fenômeno porque ele integra a comunicação
interna das nossas organizações.
A
Rádio Peão não é, como já vimos
em artigo anterior, um bicho de sete cabeças, mas um processo
informal de comunicação e absolutamente natural
para todas as organizações. Ela existe, cumpre uma
função e, necessariamente, não deve ser vista
como negativa. No fundo, ela responde por parcela significativa
da comunicação interna e é muitas vezes,
infelizmente, a única maneira de determinados públicos
interagirem em nossas organizações. Quanto mais
patrulhada for a comunicação interna, quanto mais
tensa e difícil for a relação entre chefes
e subordinados, maior será o volume da Rádio Peão.
E olha que quando ela quer fazer barulho, é de ensurdecer.
Podemos
comparar a Rádio Peão ao efeito estufa, apenas para
buscar um exemplo que está na mídia, em função
das ameaças ao planeta provocadas pelas chamadas mudanças
climáticas. O efeito estufa também costuma ser demonizado
(“o efeito estufa vai deixar a terra inabitável e
precisamos acabar com ele”, você já não
ouviu isso alguma vez?), mas ai de nós se não existisse
o efeito estufa. Se parte do calor emitido pelo Sol não
ficasse retido por aqui, a Terra seria, toda ela, uma Antártida
muito piorada e não haveria “clima” para a
existência da vida, pelo menos a vida humana. O problema,
portanto, não é o efeito estufa, porque a natureza,
generosa, de maneira geral, tem equilibrado o calor sobre a terra.
O que assusta (e precisa ser evitado a todo custo) é a
ação do homem, com sua tendência consumerista,
que agrava o efeito estufa, aumentando o calor acima do suportável.
A
Rádio Peão é assim também. Ela existe,
pode ser útil, é saudável que os funcionários
interajam entre si e não é verdade que eles assim
o fazem apenas para denegrir a imagem dos chefes e das empresas.
Se isso acontece (e não estamos negando que aconteça),
é porque, internamente, existe um “clima” favorável
para boatos, incompreensões, represálias etc. Só
para não aumentar esse debate, já que nos referimos
anteriormente à Rádio Peão, será importante
lembrar também que o Sindicato não é uma
organização que deva também ser vista negativamente.
Se não houvesse Sindicato, certamente muitos patrões
estariam, mais do que muitos já fazem, pagando salários
indecorosos, degradando as condições de trabalho
e assim por diante. Demonizar o Sindicato (embora alguns não
andem mesmo cumprindo o seu papel) é outra postura equivocada
e , talvez, a gente possa imaginar o Sindicato como mais um boto
organizacional.
O
outro boto é a cultura da empresa. Em inúmeras situações,
ela aparece para resolver conflitos e justificar medidas, que
não são sensatas, de chefias, direções
etc. Não se pode colocar certos assuntos no jornal porque
é contra a cultura da empresa, não se pode contestar
uma decisão equivocada do gerente porque é contra
a cultura da empresa, não se pode dar entrevistas para
a imprensa porque é contra a cultura da empresa. E durma-se
com um barulho desses.
A
cultura de uma organização é, certamente,
algo que deva ser considerado sempre. Ela define a forma pela
qual a chefia e os subordinados se relacionam, ela contribui para
aumentar ou reduzir a participação dos funcionários
no processo de tomada de decisões, ela estimula ou não
a pró-atividade no relacionamento com a mídia e
ela incorpora ou não a divergência interna. A comunicação
interna das organizações varia, para melhor e para
pior, dependendo da cultura da empresa. Mas é preciso considerar
que muitas vezes as chefias invocam a cultura da empresa como
forma de justificar as suas próprias opiniões, convicções,
preconceitos etc.
É
necessário levar em conta que a cultura das organizações
também muda, aliás deve mudar, já que o mercado,
a cultura da sociedade em que elas se inserem e assim por diante
não permanecem estáticos o tempo todo. Como diz
o filósofo José Simão, “quem fica parado
é poste”. A cultura das organizações
resiste a mudanças, mas muda, e, sobretudo, numa sociedade
globalizada, conectada, on line, não é possível
permanecer o tempo todo imutável. As chefias e os comunicadores
devem estar sinalizando para a necessidade destas mudanças
organizacionais, mesmo porque adaptar-se às circunstâncias
é um sinal de inteligência empresarial. Empresas
que se mantiveram paradas no tempo, perderam o bonde da história
e algumas delas figuram hoje apenas na memória. Desapareceram
quase sempre porque não perceberam que o mundo mudou e
que não havia espaço para “organizações-dinossauros”.
Assim como esses bichões desajeitados , algumas empresas,
apesar de seu porte e de sua força, se extinguem porque
as “mudanças climáticas” de repente
tornam sua vida insustentável. No mundo atual, se a gente
não se adapta , não se antecipa às mudanças,
perde a liderança, despenca no mercado e, o que é
pior, pode ir pra “cucuia”.
A
cultura organizacional não deveria, portanto, ser assumida
como um boto, algo que justifica ações e posturas
equivocadas; pelo contrário, ela deveria ser vigorosa,
flexível, inteligente o bastante para perceber para o mundo
vai adiante e persegui-lo sempre. As culturas organizacionais
devem estar sintonizadas com os novos tempos e cabe à direção
posicioná-las adequadamente para que isso aconteça
permanentemente. Todos sabemos que algumas culturas tradicionais
são difíceis de se movimentar (não é
fácil mesmo mover um elefante), mas, se elas permanecerem
no passado, não terão futuro. Temos exemplos importantes
de que isso tem sido feito: quando chegou a máquina fotográfica
digital, algumas empresas tradicionais (Cânon, Nikon, Kodak
etc) da área se sentiram ameaçadas, mas, imediatamente,
deram a volta por cima e hoje já competem com vantagem
no mercado aberto pela nova tecnologia. Quando as impressoras
e as copiadoras pessoais ameaçaram a Xerox (que vivia de
alugar grandes máquinas copiadoras), ela mudou de perfil
e agora está mais preocupada com software, com talento,
com o chamado capital intelectual do que com o hardware, a máquina.
Empresas inteligentes mudam sua cultura ou perecem.
Quando
alguém invoca a cultura organizacional para justificar
o que não está certo, não é moderno,
está cometendo um equívoco imenso. A gente deveria
responder para esses chefes: que mude a cultura porque o mundo
vai continuar andando para a frente.
O
último boto organizacional que vamos considerar aqui é
o “Eles lá de cima”. Já ouviu falar
“DELES”, não ouviu?
Quando
alguém quer justificar uma decisão, uma forma de
fazer (especialmente quando elas estão, a nosso ver, erradas),
sai logo com esta: “eles não querem, eles mandaram
a gente fazer assim” e por aí vai. Na maioria dos
casos, os “Eles lá em cima” são meras
fantasias, são abstrações, são botos
organizacionais alimentados por chefias autoritárias e
também por funcionários que buscam uma desculpa
para não fazerem diferente. É lógico que
mudar um procedimento pode ser difícil para algumas pessoas,
mas isso não justifica a paralisia. O “Eles lá
em cima” , se soubessem, ficariam indignados com a responsabilidade
que lhes é atribuída internamente por um montão
de coisas erradas que são feitas nas organizações.
Uma
forma de resolver o problema é perguntar diretamente para
“Eles lá em cima”, mas muitas organizações
são tão pouco democráticas, os acessos à
autoridade são tão difíceis que os funcionários
jamais conseguem saber o que “Eles lá em cima”
pensam sobre tal ou qual coisa. Algumas organizações
têm implementando programas que visam reverter esse processo
(Café com o presidente, Fale com o presidente) e, quando
eles funcionam (tem muita hipocrisia aí também),
este boto organizacional costuma “sair de fininho”.
Enfim,
os botos organizacionais existem, nadam tranquilamente por muitos
“rios organizacionais” e costumam ser invocados para
justificar o que não é razoável. As organizações,
principalmente, “Eles lá em cima” deveriam
atentar para o mal que os botos andam fazendo para o clima organizacional
e para a comunicação interna, em particular.
Algumas
organizações, de maneira menos inteligente do que
os povos da Amazônia, estão não apenas criando
botos simbólicos (lá no Norte pelo menos eles existem
em carne e osso), mas criando problemas para as moçoilas
grávidas. Pior ainda: os guris que andam nascendo destes
encontros furtivos não costumam ser bem aceitos na comunidade
organizacional. Eles atrapalham o bom andamento das coisas, são
mal educados, não tem pai nem mãe. Ou você
já viu algum chefe ou diretor assumir que o filho é
deles? Coitado “Deles lá em cima”: vão
ter que carregar mais esta encrenca. Problema deles. Eles merecem.
Puseram o filho no mundo, vão ter que criar. Bem feito.
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