Sua organização tem medo da Rádio Peão?
Não devia.
A
maioria das organizações tem um receio infundado
da chamada Rádio Peão (ou Rádio Corredor),
que designa o processo de comunicação que se origina
dos funcionários e que, quase sempre, é comandado
por eles, com o objetivo de se contrapor à comunicação
oficial.
A
Rádio Peão não entra no ar por geração
espontânea, ou seja, ela só é ativada quando
algo está acontecendo internamente à organização.
Como nenhuma organização é perfeita, ela
inevitavelmente ficará ativa, com o volume mais ou menos
baixo. E, o que é mais importante, ela está, quase
sempre, associada a disfunções, jamais a virtudes
organizacionais. Isto quer dizer que, quando sua transmissão
é percebida (convenhamos, muitas vezes, o volume é
tão alto que dói mesmo nos ouvidos, particularmente
das chefias), é porque existem problemas no relacionamento
entre a organização e seus públicos internos.
Mas
ter alguém que divulga as nossas deficiências não
é ruim, embora a gente tenda sempre a raciocinar desta
forma. Você já imaginou, se nós não
sentíssemos dor ou febre? Seria, pode ter certeza, arriscado
porque eles são sintomas de que algo não anda direito
e, aceitemos ou não, seria terrível, se eles não
existissem. Veja as coisas por outro ângulo: a dor de dente
(que coisa horrorosa!) é um alerta, não uma ameaça.
A
Rádio Peão , em funcionamento, pode indicar uma
série de situações. Ela aponta para lacunas
no processo de comunicação de uma organização,
ou seja, aborda temas ou assuntos que dizem respeito ao corpo
de funcionários, mas que, por várias razões,
estão sendo deixados de lado pela direção.
Por exemplo: a qualidade ou o tipo de comida servida no restaurante
(que não deve estar agradando) ; o autoritarismo ou a incompetência
de algumas chefias (puxa, isso acontece em todo lugar, não
é mesmo?) ou mesmo um cheiro estranho no ar (demissões
à vista?).
A
Rádio Peão não precisa ser estimulada, obrigatoriamente,
por forças externas ( o Sindicato é, muitas vezes,
responsabilizado injustamente por seu funcionamento), mesmo quando,
em sua programação, surgem questões candentes,
como aumento salarial, redução do número
de horas de trabalho etc. Afinal de contas, numa sociedade em
rede, os funcionários, independentemente do Sindicato,
podem descobrir que os colegas que trabalham nos concorrentes
estão sendo melhor remunerados. A reivindicação
não precisa, ao menos, ter um caráter comparativo
porque cada um de nós, individualmente, sabemos como é
triste a constatação de que o salário está
indo embora cada vez mais cedo. É triste, doloroso mesmo,
quando sobram dias do mês no fim do salário.
Qualquer
que seja o motivo, a Rádio Peão é comumente
vista como uma ameaça a ser enfrentada. Embora sem ter
como evitar que ela continue propagando as suas mensagens, a direção
(e, em especial, os seus prepostos) não tem dúvida:
ela precisa sair do ar. Algo precisa ser feito, imediatamente,
antes que contamine, perigosamente, o clima organizacional.
Mas
será que ela é mesmo tão perversa? Será
que a Rádio Peão tem como objetivo destruir a organização
que a abriga e, portanto, deve ser riscada do mapa? E aí
vem a pergunta mais incisiva: Mas dá para liquidar a Rádio
Peão? A Rádio Peão pode, se a organização
decidir, ser tirada do ar? A Rádio Peão é
uma rádio pirata?
Um
equívoco formidável.
Aqueles
que contemplam, de maneira absolutamente negativa, a Rádio
Peão e que a incluem no “eixo do mal” (a expressão
é do presidente Bush – sai pra lá, gente ruim!,
atormentado com a ameaça terrorista, esta sim bem real),
costumam estar redondamente enganados.
A
Rádio Peão não é tão feia como
a pintam e, o que é mais significativo, ela faz parte do
processo de comunicação de qualquer organização.
Ela é democrática porque freqüenta organizações
de qualquer porte e tem a capacidade de arrebanhar ouvintes atentos
em qualquer lugar do País ou do exterior (ou você
pensa que só as organizações brasileiras
têm a sua companhia?). A Rádio Peão, embora
não seja coordenada por profissionais de comunicação,
pode exibir uma competência formidável; logo, antes
de execrá-la como um fenômeno nocivo, talvez valesse
a pena ouvi-la com mais cuidado. Os comunicadores têm muito
a aprender com ela porque, no fundo, a Rádio Peão
traduz uma experiência importante de relacionamento com
os colaboradores (eta palavrinha complicada e hipócrita!).
Seria bastante aconselhável que os profissionais de comunicação
organizacional a sintonizassem com mais regularidade porque há
ensinamentos importantes sendo transmitidos por ela. A Rádio
Peão é uma escola informal construída dentro
dos muros da organização.
A
primeira coisa que se deve entender é que a Rádio
Peão é “coisa nossa”, ou seja, queiramos
ou não, nós somos responsáveis por ela. Quando
ela está ali, funcionando, em alto e bom som, é
porque a organização não foi suficientemente
competente, em seu processo de interação com os
funcionários, e deixou vazios para serem preenchidos.
A
Rádio Peão é exatamente a mão esquerda
(não é a direita porque costumamos convencionar
que a oposição é sempre de esquerda!) da
comunicação de “mão dupla” (lembra-se?
aquela que postula a importância do “feedback”?),
muito difundida nos discursos dos executivos que comandam a comunicação
interna, mas pouco praticada por eles.
Ela
existe porque as organizações costumam ignorar as
demandas, as expectativas e as necessidades dos funcionários
e os convida (ou os impele) a criar um veículo próprio
para propagar as suas reivindicações, os seus temores
e até os boatos que povoam as nossas relações
pessoais e profissionais (puxa, tem empresa – e famílias
- que mais parecem uma imensa rede de intrigas).
A
Rádio Peão faz sentido. Ela é , na prática,
uma contrapartida à comunicação oficial,
a voz (que pode ser barulhenta e desagradável algumas vezes)
dos funcionários que se sentem, de alguma forma, penalizados
por um processo de gestão ineficaz ou por uma comunicação
interna não democrática. E você acha justo
que funcionários descontentes retribuam com fala mansa
e elogios aos patrões? Você age assim quando se sente
injustiçada?
E
aí é que vem o melhor (ou o pior?) da história:
o sucesso da Rádio Peão está na razão
direta do insucesso do processo de comunicação organizacional.
Uma organização que tem uma política de comunicação
que prima pela agilidade, pela pró-atividade, pelo profissionalismo,
pela ética, pela transparência , em geral cria embaraços
terríveis para o pleno funcionamento da Rádio Peão.
Se as informações circulam rápida e democraticamente,
se a organização tem um bom ouvido para escutar
(na verdade, a maioria das nossas organizações tem
o mesmo defeito: uma boca enorme e uma orelha bem pequenininha),
a Rádio Peão não encontra com facilidade
ouvintes interessados. Se os funcionários são bem
atendidos pela comunicação oficial (e o oficial
aqui não tem sentido pejorativo), não precisam sintonizar
outros veículos, não precisam de outros apresentadores
de rádio para comunicar as boas e más notícias.
A
Rádio Peão é uma concorrente importante e
não precisa ser vista como um adversário perigoso
e desleal. Na maioria dos casos, não é. Ela representa
a expressão, a voz dos funcionários e pode, inclusive,
ser utilizada no bom sentido, para legitimar a gestão e
a comunicação competentes. O som da Rádio
Peão só é desagradável quando a organização
não consegue sintonizá-la direito. Isso acontece
também com os nossos aparelhos receptores quando estão
com a pilha fraca (a comunicação interna de muitas
organizações parece que estão sempre com
a pilha fraca!) ou quando a gente não coloca o ponteirinho
em cima do lugar correto. Fica aquele chiado enorme, não
é verdade? Às vezes, a Rádio Peão
não pega direito e incomoda porque há interferências
externas, mas o normal é que a sintonia inadequada seja
mesmo culpa nossa, da nossa organização.
É
preciso, de uma vez por todas, enxergar a Rádio Peão
com outros olhos e ouvidos. Ela integra a comunicação
das organizações (assim como as bactérias
e os vírus fazem parte do nosso organismo e alguns até
são indispensáveis para ele). Não precisamos
sair por aí proclamando blasfêmias contra ela. Não
vai adiantar nada.
Toda
organização boa tem uma boa Rádio Peão.
Toda organização que anda pisando na bola, em sua
comunicação interna, tem uma Rádio Peão
barulhenta, chata e que, na opinião das chefias, pode ser
até ameaçadora. Vamos admitir:, para elas, a Rádio
Peão pode até ser perigosa porque costuma inclui-las
como vilões em sua programação diária.
Chefes, na Rádio Peão, dificilmente aparecem como
os mocinhos das telenovelas.
O
importante é que a gente aprenda a conviver com a Rádio
Peão porque, na prática, para não esticar
demais a conversa, toda organização tem mesmo a
Rádio Peão que merece.
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