Do treinamento à aprendizagem
O
linguajar técnico da comunicação organizacional
está impregnado de expressões em língua estrangeira.
Trata-se de algo injustificável. Algumas vezes realmente
precisamos utilizar um termo estrangeiro por não haver
similar apropriado na língua portuguesa. Na maior parte
dos casos, entretanto, o uso de estrangeirismos não convém,
revelando apenas cafonice, arrogância, desinformação
e até mesmo picaretagem.
No
âmbito da administração de crises, por exemplo,
existe um termo bastante conhecido - media training –
que poderia facilmente ser substituído por "treinamento
de mídia" sem qualquer prejuízo para a semântica.
Esta
recomendação revela-se ao mesmo tempo útil
e sensata. Usando o velho e bom português nos eximimos da
tentação de macaquear a sintaxe inglesa (e outras).
Ao mesmo tempo, atentamos para as peculiaridades de culturas distintas
(no referido caso, a brasileira e a americana), entrevendo, ainda,
a possibilidade de confrontar – e posteriormente aprimorar
– conceitos.
Training X treinamento
Para o brasileiro, o "treinamento" não passa
de uma orientação circunstancial e estanque. Isso
se acentua na operacionalização das técnicas
existentes, nas quais um padrão de comportamento antropologicamente
assentado é determinante.
Em
geral, somos contingenciais, enquanto os americanos adotam método
de gestão mais processual e planejado. Os efeitos do "jeitinho
brasileiro" costumam ser discutíveis: ao invés
da consciência permanente do aprendizado – em que
pesa a famosa "gestão do conhecimento" (capacidade
de uma organização de gerar conhecimento e atuar
efetivamente baseada no conhecimento que gerou) -, os nossos executivos
preferem o treinamento de ocasião, que pode ou não
capacitá-los para enfrentar os problemas. Paciência.
Qualquer Relações Públicas sabe que a tarefa
mais difícil na gestão da comunicação
é mudar a cultura organizacional.
Capital intelectual
O treinamento de mídia consiste, basicamente, em exercícios
de simulação para ajudar executivos e porta-vozes
de empresas a se comunicar com jornalistas. Neste exercício,
as perguntas desagradáveis a que o "trainee"
possa ser submetido são trabalhadas para "lapidar"
as respostas. Estimula-se aí, no gestor, a consciência
do cuidado com a linguagem.
Geralmente,
é durante a administração de crises que o
treinamento de mídia costuma ser mais acionado. Claro que
a natureza das crises varia e, portanto, o enfoque do "treinamento"
sempre muda. O que não se altera é o processo mental
de seleção da informação transmitida
(percepção cognitiva), que permite a retenção
de conceitos (entendimento). Transformando-se em conhecimento
interiorizado, a técnica do treinamento
de mídia possibilitará uma tomada de decisão
adequada aos estímulos emitidos pelo macro-ambiente. Assim,
quando for pego de surpresa, o gestor saberá qual lógica
discursiva deve adotar. Uma das regras principais diz respeito
à transparência. Se erros comprovadamente existirem,
deverão ser admitidos sem hesitação.
Há
quem atribua ao treinamento de mídia o rótulo de
"tática do rodeio". Além de cínico,
este argumento é néscio. Nunca saberemos todas as
perguntas espinhosas que poderão ser feitas a um determinado
gestor (por isso é tão importante ater-se a uma
lógica discursiva). Isso não equivale à simples
embromação. Grosso modo, lógica discursiva
é o mesmo que suporte para a boa comunicação.
Ela se estrutura em modelos de articulação claros,
baseados no repertório e raciocínio verbal, objetividade,
precisão e consciência de organização
do discurso. Quando opta por inúteis subterfúgios,
o executivo pode ficar marcado na imprensa como um certo político
que nada viu, nada soube, nada comandou. Convenhamos que é
desastroso passar à mídia a impressão de
inépcia. Além do mais, a dinâmica da crise
pode surpreender e deixar a imagem da organização
– e do seu dirigente – ainda pior.
Na
verdade, o treinamento de mídia funciona como mais uma
possibilidade de acumulação de capital intelectual.
Serve tanto para não cair na esparrela da imprensa mal-intencionada,
como de instrumento promotor da boa comunicação
(aquela que atenta para todas as variáveis do ato comunicativo,
primando pelo respeito ao interlocutor). Se no Brasil ainda não
existe essa consciência, pelo menos a técnica vale
como estímulo para se policiar a "retórica
Vanderlei Luxemburgo" dentro de uma empresa. É constrangedor
quando, para ostentar falso conhecimento, um gestor envereda pelo
falatório empolado, destilando palavrinhas estrangeiras
que nada dizem.
Outros
artigos desse autor:
Ouvir,
dialogar, somar
Na
engrenagem, contra a crise
De
dentro pra fora
O
que querem e pensam estudantes e empresas sobre a comunicação
organizacional?