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Administração de Crises

MÁRCIO MATOS

Graduado em Relações Públicas pela Unifacs, Especialista em Gestão de Crises pela UNEB. Atualmente trabalha na Assessoria de Comunicação dos Correios e Telégrafos de Salvador/BA.

Do treinamento à aprendizagem

O linguajar técnico da comunicação organizacional está impregnado de expressões em língua estrangeira. Trata-se de algo injustificável. Algumas vezes realmente precisamos utilizar um termo estrangeiro por não haver similar apropriado na língua portuguesa. Na maior parte dos casos, entretanto, o uso de estrangeirismos não convém, revelando apenas cafonice, arrogância, desinformação e até mesmo picaretagem.

No âmbito da administração de crises, por exemplo, existe um termo bastante conhecido - media training – que poderia facilmente ser substituído por "treinamento de mídia" sem qualquer prejuízo para a semântica.

Esta recomendação revela-se ao mesmo tempo útil e sensata. Usando o velho e bom português nos eximimos da tentação de macaquear a sintaxe inglesa (e outras). Ao mesmo tempo, atentamos para as peculiaridades de culturas distintas (no referido caso, a brasileira e a americana), entrevendo, ainda, a possibilidade de confrontar – e posteriormente aprimorar – conceitos.

Training X treinamento

Para o brasileiro, o "treinamento" não passa de uma orientação circunstancial e estanque. Isso se acentua na operacionalização das técnicas existentes, nas quais um padrão de comportamento antropologicamente assentado é determinante.

Em geral, somos contingenciais, enquanto os americanos adotam método de gestão mais processual e planejado. Os efeitos do "jeitinho brasileiro" costumam ser discutíveis: ao invés da consciência permanente do aprendizado – em que pesa a famosa "gestão do conhecimento" (capacidade de uma organização de gerar conhecimento e atuar efetivamente baseada no conhecimento que gerou) -, os nossos executivos preferem o treinamento de ocasião, que pode ou não capacitá-los para enfrentar os problemas. Paciência. Qualquer Relações Públicas sabe que a tarefa mais difícil na gestão da comunicação é mudar a cultura organizacional.

Capital intelectual

O treinamento de mídia consiste, basicamente, em exercícios de simulação para ajudar executivos e porta-vozes de empresas a se comunicar com jornalistas. Neste exercício, as perguntas desagradáveis a que o "trainee" possa ser submetido são trabalhadas para "lapidar" as respostas. Estimula-se aí, no gestor, a consciência do cuidado com a linguagem.

Geralmente, é durante a administração de crises que o treinamento de mídia costuma ser mais acionado. Claro que a natureza das crises varia e, portanto, o enfoque do "treinamento" sempre muda. O que não se altera é o processo mental de seleção da informação transmitida (percepção cognitiva), que permite a retenção de conceitos (entendimento). Transformando-se em conhecimento interiorizado, a técnica do treinamento de mídia possibilitará uma tomada de decisão adequada aos estímulos emitidos pelo macro-ambiente. Assim, quando for pego de surpresa, o gestor saberá qual lógica discursiva deve adotar. Uma das regras principais diz respeito à transparência. Se erros comprovadamente existirem, deverão ser admitidos sem hesitação.

Há quem atribua ao treinamento de mídia o rótulo de "tática do rodeio". Além de cínico, este argumento é néscio. Nunca saberemos todas as perguntas espinhosas que poderão ser feitas a um determinado gestor (por isso é tão importante ater-se a uma lógica discursiva). Isso não equivale à simples embromação. Grosso modo, lógica discursiva é o mesmo que suporte para a boa comunicação. Ela se estrutura em modelos de articulação claros, baseados no repertório e raciocínio verbal, objetividade, precisão e consciência de organização do discurso. Quando opta por inúteis subterfúgios, o executivo pode ficar marcado na imprensa como um certo político que nada viu, nada soube, nada comandou. Convenhamos que é desastroso passar à mídia a impressão de inépcia. Além do mais, a dinâmica da crise pode surpreender e deixar a imagem da organização – e do seu dirigente – ainda pior.

Na verdade, o treinamento de mídia funciona como mais uma possibilidade de acumulação de capital intelectual. Serve tanto para não cair na esparrela da imprensa mal-intencionada, como de instrumento promotor da boa comunicação (aquela que atenta para todas as variáveis do ato comunicativo, primando pelo respeito ao interlocutor). Se no Brasil ainda não existe essa consciência, pelo menos a técnica vale como estímulo para se policiar a "retórica Vanderlei Luxemburgo" dentro de uma empresa. É constrangedor quando, para ostentar falso conhecimento, um gestor envereda pelo falatório empolado, destilando palavrinhas estrangeiras que nada dizem.


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