A
comunicação organizacional pode ser pensada sob
diversas perspectivas. Algumas, particularmente pautadas pela
lógica de mercado, inclinam-se às simplificações,
seja no sentido de sua concepção, seja no de suas
práticas. De modo geral, apenas procuram dar conta das
necessidades de informação imediata, observando
aspectos econômico-temporais, ou seja, dentre outras coisas,
tendem a realizar o que tiver o menor custo financeiro, no menor
espaço de tempo e/ou envolvendo o menor número de
pessoas.
Mesmo
aceitando-se que, muitas vezes, essas simplificações
sejam necessárias, por exemplo, para que um determinado
projeto possa ser implementado, a inconsistência e/ou incoerência
parece estar em se reduzir a idéia de comunicação
organizacional a isso. Portanto, o problema não está
nas necessárias simplificações operacionais,
mas, fundamentalmente, no fato de essas concepções
simplistas imporem-se conceitualmente como sendo “a”
comunicação organizacional.
Posturas/atitudes
simplistas tendem a subestimar a outra força em relação
de comunicação à medida que desconsideram,
por exemplo, as competências cognitivas da alteridade. Assim,
ao assumir tais posturas/atitudes está-se inclinado, em
algum nível, a agir como que por ‘esquecimentos’.
Dentre outras coisas, tende-se a esquecer que: 1) a alteridade
é força em relação (dialogismo[1]);
2) os sujeitos são ativos e atualizam diferentes competências;
3) os sujeitos interpretam (atribuem/reconhecem sentido) a partir
de seus repertórios/conhecimentos prévios, de seus
desejos e objetivos, de sua cultura e imaginário; 4) a
alteridade pode se apropriar dos códigos lingüísticos
e culturais para agir estrategicamente, seja no sentido da cooperação
e/ou da resistência; e 5) as estratégias de comunicação
e cognição atualizam-se no acontecer. Geralmente,
atitudes simplistas sobrepõem-se à postura de humildade
e respeito frente ao ‘outro’ (alteridade).
À
luz dessa reflexão, acredita-se que seja mais fértil
compreender/explicar a comunicação organizacional
como processo de construção e disputa de sentidos[2]
no âmbito das relações organizacionais.
Essa concepção dá conta da idéia de
que a comunicação consiste em relação,
e, conforme Foucault (1996, p. 75), toda relação
é relação de forças, portanto de disputa.
Sem que se tratem de disputas de forças físicas,
a comunicação consiste em sujeitos-força
em relação que, tensionados, disputam os sentidos
que serão internalizados por cada sujeito na/da relação
comunicacional, nesse caso, cada indivíduo, público
e/ou organização que materializa algum tipo de relação
com a organização. Também é nesse
processo que os sentidos, ao tempo que são construídos,
assumem alguma ordenação/organização
para que a compreensão entre os sujeitos-força seja
possível.
Assim,
se é certo que a comunicação organizacional
compreende a comunicação formal/oficial realizada
pela organização (como por exemplo a mercadológica,
a institucional e a administrativa e técnica), também
é certo que contempla a comunicação informal/não
oficial que se refere/envolve, de alguma maneira, a organização
(exemplos são: as especulações; os boatos;
as conversas informais sobre a empresa realizadas entre amigos/colegas/familiares
– independentemente do local onde ocorram –; as notícias
não oficiais veiculadas por diferentes mídias; as
referências à organização que se atualizam
em blogs, páginas de comunidades não oficiais e
e-mails; e as conversas informais que ocorrem na própria
empresa). Com isso, pontua-se que, muito além da comunicação
autorizada (oficial), e até mais ‘intensa/volumosa’
do que essa, a comunicação organizacional consiste,
também, na comunicação não autorizada
(informal). A comunicação formal é, apenas,
a parte mais visível e tangível da comunicação
organizacional.
Nessa
medida, pensar a comunicação organizacional exige
que se atente, não somente para os desdobramentos do que
a organização comunica na perspectiva do planejado,
do ordenado, do oficial, mas também, e principalmente,
para os sentidos que são construídos e disputados
nas diferentes relações que se materializam entre
os diversos sujeitos-força e a organização.
Auscultar essas realizações comunicacionais, dentre
outras coisas, permite melhor conhecer a própria organização,
sua identidade e visibilidade, sua imagem-conceito (BALDISSERA,
2004) e legitimidade, bem como avaliar a comunicação
formal e redimensioná-la caso necessário.
Referências
Bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico na ciência
da linguagem. 9. ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
BALDISSERA, Rudimar. Comunicação organizacional:
o treinamento de recursos humanos como rito de passagem. São
Leopoldo: Unisinos, 2000.
_______. Imagem-conceito: anterior à comunicação,
um lugar de significação. Porto Alegre: 2004. Tese
(Doutorado em Comunicação Social) – PUCRS.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 12. ed. Rio de
Janeiro: Graal, 1996.
[1]
Perspectiva de Bakhtin, 1999.
[2] A compreensão de comunicação como “processo
de construção e disputa de sentidos” foi apresentada
na dissertação de mestrado (BALDISSERA, 2000) e complexificada
na tese de doutorado (BALDISSERA, 2004, p. 128).