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Comunicação Organizacional

RUDIMAR BALDISSERA

Doutor em Comunicação; Mestre em Comunicação/Semiótica; Especialista em Gestão de Recursos Humanos; Bacharel em Relações Públicas. Professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor do livro "Comunicação organizacional: o treinamento de recursos humanos como rito de passagem" (Unisinos, 2000). Principais temáticas de pesquisa: Relações Públicas; comunicação e cultura organizacional; relações de poder; imagem-conceito; comunicação turística.

Comunicação Organizacional: Uma Compreensão Possível

A comunicação organizacional pode ser pensada sob diversas perspectivas. Algumas, particularmente pautadas pela lógica de mercado, inclinam-se às simplificações, seja no sentido de sua concepção, seja no de suas práticas. De modo geral, apenas procuram dar conta das necessidades de informação imediata, observando aspectos econômico-temporais, ou seja, dentre outras coisas, tendem a realizar o que tiver o menor custo financeiro, no menor espaço de tempo e/ou envolvendo o menor número de pessoas.

Mesmo aceitando-se que, muitas vezes, essas simplificações sejam necessárias, por exemplo, para que um determinado projeto possa ser implementado, a inconsistência e/ou incoerência parece estar em se reduzir a idéia de comunicação organizacional a isso. Portanto, o problema não está nas necessárias simplificações operacionais, mas, fundamentalmente, no fato de essas concepções simplistas imporem-se conceitualmente como sendo “a” comunicação organizacional.

Posturas/atitudes simplistas tendem a subestimar a outra força em relação de comunicação à medida que desconsideram, por exemplo, as competências cognitivas da alteridade. Assim, ao assumir tais posturas/atitudes está-se inclinado, em algum nível, a agir como que por ‘esquecimentos’. Dentre outras coisas, tende-se a esquecer que: 1) a alteridade é força em relação (dialogismo[1]); 2) os sujeitos são ativos e atualizam diferentes competências; 3) os sujeitos interpretam (atribuem/reconhecem sentido) a partir de seus repertórios/conhecimentos prévios, de seus desejos e objetivos, de sua cultura e imaginário; 4) a alteridade pode se apropriar dos códigos lingüísticos e culturais para agir estrategicamente, seja no sentido da cooperação e/ou da resistência; e 5) as estratégias de comunicação e cognição atualizam-se no acontecer. Geralmente, atitudes simplistas sobrepõem-se à postura de humildade e respeito frente ao ‘outro’ (alteridade).

À luz dessa reflexão, acredita-se que seja mais fértil compreender/explicar a comunicação organizacional como processo de construção e disputa de sentidos[2] no âmbito das relações organizacionais. Essa concepção dá conta da idéia de que a comunicação consiste em relação, e, conforme Foucault (1996, p. 75), toda relação é relação de forças, portanto de disputa. Sem que se tratem de disputas de forças físicas, a comunicação consiste em sujeitos-força em relação que, tensionados, disputam os sentidos que serão internalizados por cada sujeito na/da relação comunicacional, nesse caso, cada indivíduo, público e/ou organização que materializa algum tipo de relação com a organização. Também é nesse processo que os sentidos, ao tempo que são construídos, assumem alguma ordenação/organização para que a compreensão entre os sujeitos-força seja possível.

Assim, se é certo que a comunicação organizacional compreende a comunicação formal/oficial realizada pela organização (como por exemplo a mercadológica, a institucional e a administrativa e técnica), também é certo que contempla a comunicação informal/não oficial que se refere/envolve, de alguma maneira, a organização (exemplos são: as especulações; os boatos; as conversas informais sobre a empresa realizadas entre amigos/colegas/familiares – independentemente do local onde ocorram –; as notícias não oficiais veiculadas por diferentes mídias; as referências à organização que se atualizam em blogs, páginas de comunidades não oficiais e e-mails; e as conversas informais que ocorrem na própria empresa). Com isso, pontua-se que, muito além da comunicação autorizada (oficial), e até mais ‘intensa/volumosa’ do que essa, a comunicação organizacional consiste, também, na comunicação não autorizada (informal). A comunicação formal é, apenas, a parte mais visível e tangível da comunicação organizacional.

Nessa medida, pensar a comunicação organizacional exige que se atente, não somente para os desdobramentos do que a organização comunica na perspectiva do planejado, do ordenado, do oficial, mas também, e principalmente, para os sentidos que são construídos e disputados nas diferentes relações que se materializam entre os diversos sujeitos-força e a organização. Auscultar essas realizações comunicacionais, dentre outras coisas, permite melhor conhecer a própria organização, sua identidade e visibilidade, sua imagem-conceito (BALDISSERA, 2004) e legitimidade, bem como avaliar a comunicação formal e redimensioná-la caso necessário.

Referências Bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 9. ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
BALDISSERA, Rudimar. Comunicação organizacional: o treinamento de recursos humanos como rito de passagem. São Leopoldo: Unisinos, 2000.
_______. Imagem-conceito: anterior à comunicação, um lugar de significação. Porto Alegre: 2004. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – PUCRS.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 12. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1996.


[1] Perspectiva de Bakhtin, 1999.
[2] A compreensão de comunicação como “processo de construção e disputa de sentidos” foi apresentada na dissertação de mestrado (BALDISSERA, 2000) e complexificada na tese de doutorado (BALDISSERA, 2004, p. 128).

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